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4 de ago. de 2010

Aconteceu.

Cheguei de viagem. Não sei nem se já posso escrever, se caiu a ficha de tudo o que eu vi lá, mas enfim, vou tentar.

Uma viagem como essa não é fácil. Desde o tema, passando por viajar em grupo, o calor, o preço da cerveja. Mas foi uma viagem foda. Inesquecível.

O primeiro lugar que mexeu muito comigo foi Majdaneck. Majdaneck é um campo de concentração e extermínio que está pronto pra uso. Sério, se quisessem reativar levaria no máximo uma hora. Assustador. Entramos nas câmaras de gás, nos fornos crematórios, vimos os sapatos, as malas, restos de vida. Só que até aí estava "tudo bem". Explico, Majdaneck, como a maioria dos campos, virou um museu. Tem sua museografia, dá pra perceber a lógica que quiseram passar a partir da exposição das peças, dos restos. Não que seja fácil, é assustador, mas estávamos observando de fora.

Em um determinado momento o Michel, nosso coordenador acadêmico, pediu à Julia para ler um trecho do É Isto um Homem?, do Primo Levi. Na passagem ele fala que Deus não existe nos Campos. Eu desabei.

Li o livro antes da viagem, e imaginei milhões de coisas na descrição dos campos. De repente eu estava em um. Não o que ele sobreviveu, mas isso não importa. Estava em um Campo de Extermínio onde vidas eram jogadas fora como quem apaga um cigarro. Era real.

Não sabia explicar porque eu estava chorando. Pelos mortos? Pela crueldade? Não sei. Só sei que chorava sem parar. No fim do dia, quando o grupo se reuniu pra discutir o que vimos, eu só consegui dizer que estava com raiva. Fiquei com raiva de deus, da fé, apesar de não acreditar nele. Por mais que as religiões falem em livre arbítrio, como um deus pôde permitir essa barbárie?

Foi uma das muitas reações que tive durante a viagem na Polônia. Dá tristeza, raiva, sensação de impotência, um turbilhão de sentimentos

Mas sei que não tem nada de extra-terrestre, místico ou Deus no Holocausto. Foi feito por homens e mulheres, por uma sociedade. E talvez isso seja o mais difícil de entender.

10 de jun. de 2010

Os "motivos" de Hitler

Essa semana li um post no Facebook de um amigo, sobre um funk chamado Faixa de Gaza, fazendo apologia ao Comando Vermelho. Ele questionava se o Celso Amorim ou o Cabral iam intervir no conflito.

Um desavisado postou um comentário dizendo assim: Hitler deveria ter os seus motivos na época. Me chocou, mas fui calmamente responder, dizendo que ele estava confundido as coisas, que as motivações de Hitler, dentre outras coisas, eram baseadas num mito antissemita comum na europa e no mundo, e que NADA, absolutamente nada justifica o Holocausto.

A partir daí a discussão foi tanta que o post recebeu 76 comentários. A maioria sensata, dizendo que não dá pra dizer nunca que Hitler teria "seus motivos", mas alguns relativizando e comparando com a postura do Estado de Israel, fazendo a confusão habitual entre judeus e Governo de Israel.

E isso me assusta. Primeiro porque a ignorância é a base pra todo preconceito. Se o outro é diferente, se não é meu "igual", se eu não me reconheço, eu posso ignorar, ou pior, odiar.

Segundo porque o Holocausto está ficando cada vez mais distante, vai virando história. Somos a última geração que pode conversar com pessoas que viveram o inimaginável, que têm seus braços tatuados com números, que viveram uma das maiores atrocidades já cometidas pela humanidade.

Estou estudando Holocausto há 4 meses. Em julho vou visitar os Campos de Concentração na Polônia e, depois, em Israel, participo de seminários sobre o legado e sobre chacinas étnicas atuais. E antes que alguém venha com aquele papo de que os judeus não esquecem esse sofrimento ou usam como justificativa para tudo, explico: O HOLOCAUSTO NÃO É UMA QUESTÃO JUDAICA, É UMA QUESTÃO DA HUMANIDADE.

Em caps, gritando mesmo!

Sempre existiram chacinas étnicas horríveis, o ser humano é bicho violento e estúpido, mas o Holocasuto se diferencia de outras chacinas por algumas questões pontuais e muito sérias. Um Estado com uma produção intelectual brilhante, um lugar onde floresciam novas idéias, colocou todo esse pensamento racional com o objetivo de exterminar alguns grupos de pessoas. Morte de maneira industrial.

No início, o extermínio era como qualquer outro, armas de fogo e banho de sangue. Mas, mesmo para um soldado nazista, as imagens da violência ficavam presas na memória. Não é normal assassinar um ser humano. Há casos em que os nazistas, em 24 horas, assassinaram 30 mil pessoas. Colocavam-nas na frente de uma vala e iam atirando, com revezamento dos pelotões. Dá pra imaginar a quantidade de sangue? Eu não consigo. Não tem como não ficar um trauma de alguma forma.

Era preciso uma forma de extermínio mais eficaz, que não impactasse no soldado e desse mais resultados. Os cientistas, estrategistas, as cabeças pensantes do Nacional Socialismo se reuniram para criar esse método, e alcançaram o objetivo.

Sempre me perguntei como os soldados alemãs conseguiam conviver com si próprios, como era possível acordar, tomar café, escrever cartas pra mãe ou pra esposa, e depois mandar milhares de seres humanos pra câmaras de gás.

A estratégia nazista foi desumanizar os prisioneiros. Não existiam nomes, e sim números. Não havia rostos, e sim uma população inteira com cabelos raspados, raquíticos pela fome, com um mesmo uniforme. E quem levava para o crematório os cadáveres dos assassinados nas câmaras de gás eram os próximos da fila. E o gás, também foi desenvolvido por eles! Uma estratégia extremamente eficaz.

Por isso não dá pra esquecer. É tão importante que a gente se lembre como a humanidade conseguiu chegar a esse ponto pra nunca, nunca mais repetir. Posso até estar estudando porque eu sou judia, mas o holocausto me dói porque sou humana.




PS. Quem quiser acompanhar as aulas via Twitter é só procurar por #yadvaed10, e toda segunda a partir de 20h30 eu to tuittando.